O homem é livre! Deus é limitado em seu governo e conhecimento! Essas são as duas afirmações básicas da teologia relacional. Primeiramente analisaremos a afirmação acerca do homem.
O homem é livre? Sim, de fato ele o é. É assim que a Escritura o apresenta. No entanto, dizer simplesmente “o homem é livre”, num tempo em que o termo liberdade é sinônimo de autonomia, sem definir o que se quer dizer por essa liberdade que o homem possui, é não fazer jus ao ensino da revelação.
Anthony Hoekema define o homem de maneira muito feliz. Segundo Hoekema o homem é uma PESSOA CRIADA. Essa definição faz jus a aquilo que a Escritura diz acerca do homem. O homem é apresentado na Escritura como imagem e semelhança de Deus, e isso faz dele um ser pessoal como Deus o é. Pelo fato de ser uma pessoa, o homem é um ser livre, que faz escolhas, traça planos e metas, toma decisões, e, portanto, é completamente responsável pelo que faz. É por isso que Paulo adverte escrevendo aos Gálatas: “aquilo que o homem semear, isso também ceifará.” (Gl 6.7). È também por isso que por vezes a Escritura apela ao homem: Arrependei-vos, convertei-vos e etc.O homem é uma pessoa, e, portanto, um ser livre e responsável.
No entanto o homem é também uma criatura. Ele é pessoa criada. Em Gn 1.27 lemos: Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Se por um lado o fato de ser pessoa faz do homem um ser livre e responsável, por outro lado, o fato de ser criatura o torna inteira e completamente dependente de Deus o seu Criador. O Apóstolo Paulo utilizou-se da figura do barro nas mãos do oleiro para mostrar a dependência do homem de seu Criador. Além disso, ele afirmou claramente que o homem é dependente de Deus para viver, respirar e se mover (At 17.25-28). Sendo assim, a liberdade que o ser humano possui é uma liberdade relativa ao seu criador, e não independente dele.

Este é, pois o mistério fundamental do homem: como pode o ser humano ser igualmente uma criatura e uma pessoa? Ser uma criatura, como já vimos, significa dependência absoluta de Deus; ser uma pessoa significa independência relativa. Ser uma criatura significa que não posso mover um dedo ou pronunciar uma palavra à parte de Deus; ser uma pessoa significa que, quando meus dedos são movidos, eu os movo, e que quando as palavras são pronunciadas pelos meus lábios, eu as pronuncio. Sermos criaturas significa que Deus é o oleiro e nós, o barro (Rm 9.21); sermos pessoas significa que nós mesmos moldamos nossa vida pelas nossas próprias decisões. (Gl 6.7-8) (Anthony Hoekema, Criados à imagem de Deus, p.17)

Ainda que a harmonia dessas verdades seja, no aspecto teórico, algo complexo, a manutenção de ambas as verdades acerca do homem é necessária para se fazer justiça ao ensino bíblico e não comprometer verdades escriturísticas. Supervalorizar o aspecto de criatura do homem em detrimento da pessoalidade leva inevitavelmente ao determinismo. Quem assim o faz torna o homem um mero robô. Por outro lado, supervalorizar a pessoalidade em detrimento do aspecto da criatura torna o homem o seu próprio Deus, um ser independente do Criador na determinação do seu destino.
Esse último é o erro da teologia relacional. Ela supervaloriza a pessoalidade do homem em detrimento do seu aspecto de criatura. Segundo seus proponentes, o homem é, não somente livre no sentido de que faz escolhas sem uma coação externa, mas no sentido de que é autônomo e independente do Criador. Nesse sentido, a teologia relacional não está de acordo com a revelação bíblica acerca do homem. Liberdade sim, Autonomia não!!!

Rev. Filipe Costa Fontes