No penúltimo post fomos apresentados à teologia relacional, essa nova visão acerca de Deus e do homem que chega atualmente no pensamento eclesiástico brasileiro. Vimos que, segundo a teologia relacional tendo em vistas um relacionamento de amor com o homem Deus decidiu dotá-lo de completa autonomia, de forma que o homem constrói a sua vida sem qualquer interferência divina, tendo em sua vontade a causa última de todas as suas decisões e atitudes. Para que isso fosse possível, Deus se esvaziou de alguns de seus atributos, limitando-se e se abrindo para novas experiências, dentre as quais está a de construir a quatro mãos com o homem a história, sem qualquer conhecimento ou determinação prévios. Ou seja, Deus e o homem, estão juntos escrevendo a história, de tal forma que nem o homem e nem Deus tem controle ou sequer conhecimento dos acontecimentos futuros. O futuro para ambos é como uma página em branco. Tudo está aberto e indefinido neste relacionamento entre Deus e o homem.
Um dos princípios centrais da fé reformada é o fato de que todo conhecimento acerca da realidade depende do conhecimento que alguém tem acerca de si mesmo, e esse conhecimento acerca de si mesmo depende do conhecimento acerca de Deus. A tríade percorrida, então, pelo homem no que diz respeito ao conhecimento é: CONHECIMENTO DE DEUS – CONHECIMENTO DE SI MESMO – CONHECIMENTO DO MUNDO. A base, portanto, para todo e qualquer conhecimento é o conhecimento acerca de Deus, e esse, só pode vir através de sua Palavra. Nada se pode dizer acerca de Deus que não esteja revelado, e o que passar do que foi revelado deve ser tratado como mera especulação. Portanto, ao deparar-nos com uma redefinição de um conceito tão importante da fé cristã como essa redefinição do conceito de Deus feita pela teologia relacional, devemos nos perguntar: Qual é a base para tal redefinição? Essa mudança de conceito é fruto da análise de textos da Escritura Sagrada?
Num de seus primeiros artigos sobre o assunto, Ricardo Gondim, revela o que o motivou a sua re-interpretação da realidade, do homem e de Deus.

Há alguns anos visitei Mumbai (antiga Bombaim). Ninguém anda pelas ruas da Índia e permanece o mesmo. Sua miséria destrói qualquer visão romântica da vida. A sorte de centenas de milhões não permite raciocínios objetivos. Caminhando pelo centro financeiro indiano, contemplei um mendigo completamente nu, jogado numa sarjeta e coberto de lama. O pobre homem mal respirava e naquele instante pensei: -Será que Deus em tempos imemoriais planejou criar este ser humano com o propósito de que nascesse, vivesse nessa condição, pior do que os porcos das favelas brasileiras, e depois morresse para queimar eternamente no inferno? Eu poderia responder, como fazem os conservadores evangélicos: “Sim, ele nasceu sob a ira divina, herdou o pecado de Adão e sofre como participante da raça caída e degenerada. Infelizmente vai queimar no inferno. Esse pária intocável, viverá como vaso de desonra, mas cumprirá o propósito divino para que prevaleça a vontade de Deus e os eleitos vivam eternamente no paraíso”. Com essa atitude, daria as costas para seu rosto feridento e celebraria minha fortuna de ter sido eleito – sem mérito algum – para participar dos benefícios da Cruz. Esse pensamento pode ser conseqüente para muitos, porém, não consigo acolhê-lo em meu peito. O rosto daquele indiano me persegue em noites insones, participa de meus solilóquios, e me convoca a dar melhores respostas ao sofrimento universal. A resposta lúcida e harmônica do calvinismo não me satisfaz, porque não consigo situar Jesus de Nazaré dentro dela. Prefiro observar a face terna de Deus em Cristo para perceber em seus atos o afeto divino. Desejo olhar para o faminto, o injustiçado e o marginalizado e poder identificar nele, a Imago Dei de Mateus 25, e não sua danação eterna. (Disponível aqui)

Essa afirmação de Gondim nos mostra que a motivação de sua re-interpretação acerca de Deus foi a comoção com um fato da realidade. A comoção com a realidade é algo positivo, no entanto, deixar que a experiência da realidade determine o conceito de Deus talvez seja o grande problema da teologia Relacional. Ela trilha o caminho inverso do correto caminho a ser percorrido por alguém que deseja conhecer o homem e mundo. Seu conhecimento parte de baixo para cima e não de cima para baixo. Ao invés do conhecimento de Deus determinar o conhecimento da realidade, a realidade determina o conhecimento de Deus.
Portanto, A teologia relacional é uma tentativa de conhecer a Deus a partir do homem, e não a partir daquilo que Ele revela em Sua Palavra. A conseqüência natural é: Façamos um Deus à nossa imagem, conforme à nossa semelhança.

Rev. Filipe Costa Fontes