A Bíblia possui alguns assuntos difíceis de entender. Isso é natural do processo de revelação. Embora seja um ser conhecível por que se revelou, Deus é um ser que não pode ser completamente compreendido pelo ser humano (Is 55.9; Rm 8. 33-34) . Jamais se deve esquecer que a Bíblia é a revelação do eterno ao temporal, do Criador à criatura, do auto-suficiente ao dependente, do infinito ao finito. Por isso é natural que encontremos na Bíblia alguns mistérios, coisas que Deus não revelou e que ficam além da nossa capacidade de compreensão.
Um dos mistérios da Escritura é a relação entre a soberania de Deus e a liberdade e, conseqüente responsabilidade humana. Como Deus decreta e controla todas as coisas de acordo com a sua vontade para o cumprimento de seu propósito, e os seres humanos continuam sendo seres livres, e, portanto, responsáveis pelos seus atos? Como pode Deus ser soberano e ao mesmo tempo o homem um ser livre e responsável? Via de regra, toda tentativa de solução desse aparente paradoxo, que desconsidera o mistério em sua análise, desemboca em heresia. Ora o homem é elevado à posição de Deus, ora Deus rebaixado à posição de homem.
Surge no cenário teológico brasileiro contemporâneo uma corrente de pensamento que na tentativa de solucionar tal problema comete os dois erros supra citados; tanto eleva o homem à posição de Deus, quanto rebaixa Deus a uma posição humana. Trata-se da chamada “Teologia Relacional”. Embora seus proponentes no Brasil requeiram originalidade na criação desse sistema de pensamento, o estreito compartilhamento de pressupostos permite-nos afirmar que a teologia relacional é como que uma versão tupiniquim open theism (teísmo aberto), movimento que nasceu no evangelicalismo norteamericano, e que tomou força na década de 90.
Os dois conceitos básicos da teologia relacional, tanto quanto do teísmo aberto são: a completa autonomia humana, e a autolimitação e abertura de Deus. Segundo a teologia relacional, bem como afirma o teísmo aberto, tendo em vistas um relacionamento de amor com o homem Deus decidiu dotá-lo de completa autonomia, de forma que o homem constrói a sua vida sem qualquer interferência divina, tendo em sua vontade a causa última de todas as suas decisões e atitudes. Para que isso fosse possível, Deus se esvaziou de alguns de seus atributos, limitando-se e se abrindo para novas experiências, dentre as quais está a de construir a quatro mãos com o homem a história, sem qualquer conhecimento ou determinação prévios. Ou seja, Deus e o homem, estão juntos escrevendo a história, de tal forma que nem o homem e nem Deus tem controle ou sequer conhecimento dos acontecimentos futuros. O futuro para ambos é como uma página em branco. Tudo está aberto e indefinido neste relacionamento entre Deus e o homem. Ricardo Gondim, um dos
proponentes dessa corrente de pensamento afirma:

A criação é da parte de Deus um ato não de expansão de si, mas de retirada, de
renúncia. Deus e todas as criaturas é menos que Deus sozinho. Deus aceitou essa diminuição. Esvaziou de si uma parte do ser.<
(Disponível aqui)

Somos livres porque dispomos dessa capacidade de nos aperfeiçoar, ou nos destruir, ao longo da vida. Somente os humanos conseguem se libertar dos instintos naturais para construírem a história como um projeto em aberto. (…) Não consigo acreditar numa divindade que tudo ordena, que tudo dispõe e que tudo orquestra. (…) Não o percebo com começo, meio e fim da história prontos; ou que no presente esteja contente em administrar cada nano evento preordenado em sua providência.(Disponível aqui)

Ed René Kivitz, que segundo meu conhecimento não se pronunciou claramente como um adepto da teologia relacional, mas parece compartilhar dos seus pressupostos, afirma:

Essa coisa de “Deus tem um plano para cada criatura” é incoerente em relação à fé cristã, pois seres criados à imagem e semelhança de Deus não podem ser privados da liberdade. Ou os seres humanos são responsáveis pelos seus destinos, ou não podem ser julgados moralmente.(Disponível aqui)

Por ora, nosso propósito é apresentar essa nova teologia. Muito Prazer!!! Posteriormente analisaremos suas dificuldades e os riscos oferecidos por ela à igreja de Cristo Jesus.

Rev. Filipe Costa Fontes