
Nós, cristãos tradicionais costumamos acusar os não tradicionais de desvalorização para com o ensino bíblico. No entanto, não creio que este seja um problema exclusivo de igrejas não tradicionais. Uma autorreflexão radical poderá mostrar que a desvalorização para com a Bíblia é um problema presente também no seio de nossas igrejas tradicionais. Chego a essa conclusão através de algumas percepções, muito particulares, mas que talvez sejam compartilhadas por outros como eu.
1) A exposição dos crentes ao ensino bíblico em nossas igrejas é cada dia menor. Há anos atrás, quando eu era ainda um adolescente vivendo no interior de Minas Gerais, eu frequentava uma igreja, em que, pelo menos por 5 vezes na semana, os crentes estavam submetidos ao ensino das Escrituras; na segunda-feira em um culto nos lares, na quarta-feira nos estudos bíblicos na igreja, às sextas-feiras nas reuniões de oração, aos domingos pela manhã na Escola Dominical, e no culto à noite. Hoje em dia, vivendo e pastoreando em São Paulo percebo que a maioria dos crentes se expõe ao ensino bíblico na igreja, quando muito, 2 vezes na semana, aos domingos. É claro que uma comparação ipsis literis entre a realidade do interior de Minas Gerais a 15 anos atrás e a São Paulo atual seria ingênua. Estou plenamente consciente das diferenças entre as duas realidades. Mas o fato permanece: nos submetemos hoje ao ensino bíblico menos que antes. O que significa, pelo menos, que, neste sentido, não acompanhamos as mudanças culturais que experimentamos.
2) O ensino regular e sistemático da Bíblia sofre cada vez mais resistência. As igrejas tradicionais, de modo geral, não abandonaram a Bíblia. Ela continua presente em quase todas as suas atividades. No entanto, o estudo comprometido e sistemático da Escritura parece estar sendo substituído por momentos estanques, isto é, pelas “palavrinhas”, mais comumente denominadas “devocionais”. A impressão que às vezes tenho é que, em muitas ocasiões, a Bíblia tem servido mais como uma espécie de verniz espiritual para “cristianizar” um determinado evento ou programação, do que como alimento sólido, propriamente dito. A resistência ao ensino regular e sistemático da Bíblia se vê, por exemplo, na reação das pessoas a sermões em série. Não é incomum que o anúncio de sermões em série, na igreja, seja recebido com insatisfação. Talvez isto se deva, em parte, à divinização da mudança, e à demonização do permanente, próprio da nossa cultura pós-moderna.
3) O poder da Bíblia é cada vez mais questionado. A pós-modernidade é também muito pragmática. Em nosso tempo esperamos respostas simples, que apontem ações práticas, e resolvam nossas crises e problemas imediatamente. Por isso, diante de crises ou desafios, nós parecemos acreditar mais na eficiência de nossas ideias, projetos e ações, do que no poder da Escritura. Quando estão no olho do furacão, o convite à verificação da vontade de Deus revelada na Bíblia parece soar a muitos crentes e até líderes tradicionais, uma ação inútil; perda de tempo. Tomei conhecimento a tempos atrás de um pastor que dissera que os problemas de sua igreja não seriam resolvidos com oração e estudo bíblico.
Esta constatação é profundamente preocupante, por uma simples razão: a Bíblia é o meio estabelecido por Deus para a transformação de pessoas, edificação da igreja e renovação da sociedade. Escrevendo a Timóteo, o Apóstolo Paulo atesta: Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (II Tm 3.16-17). Estas palavras revelam que quando nos afastamos da Bíblia, estamos nos afastando do instrumento de transformação de Deus. Se a Bíblia não nos transformar, individual e coletivamente, enquanto igreja e sociedade, não serão nossas ideias, planos e estratégias que o farão. Somente depois de redescobrir verdadeiramente a Bíblia poderemos experimentar as transformações que ela pode realizar em nossa vida, na igreja e na sociedade.
O poder e a necessidade da Bíblia são atestados por muitas outras passagens, como por exemplo:
A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos. O temor do Senhor é límpido e permanece para sempre; os juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente, justos. São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos. (Salmo 19.7-10)
Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra, e a fecundem, e a façam brotar, para dar semente ao semeador e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei. (Isaias 55.10-11)
Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas. (Hebreus 4.12-13)
Diante do quadro apresentado, seguem, algumas dicas práticas:
a) Aos indivíduos:
1) Procure se expor com mais frequência ao ensino da Bíblia. Há muitos cristãos que poderiam participar dos estudos bíblicos semanais e reuniões de oração, por exemplo, e que não o fazem por desânimo ou irresponsabilidade. Se este é o seu caso, tome a decisão de lutar contra si mesmo para estar junto aos seus irmãos nestas ocasiões, se expondo ao ensino da Bíblia. Numa cidade grande como SP, no entanto, é possível que outras pessoas não consigam sequer chegar a tempo das reuniões semanais em sua igreja ou não possam, justificadamente, frequentá-los. Neste caso, uma alternativa é utilizar-se da tecnologia para promover esta exposição. Você pode ouvir a Bíblia enquanto dirige, por exemplo. Pode também ouvir pregadores fiéis em sua casa, pela internet. Sugiro dois canais que possuem material suficiente para um bom tempo:
- Conferência Fiel: http://www.editorafiel.com.br/videoteca.php
- Programa Verdade e Vida: http://www.verdadeevida.com/portal/
2) Lute contra a tendência à superficialidade. Procure estudar a Bíblia regular e sistematicamente. Há bons livros que podem servir de guia para um estudo sistemático da Bíblia. A revista Expressão, ou a série de estudos bíblicos de John Stott, ambos publicados pela Editora Cultura Cristã, são exemplos de material que pode ser útil para este propósito.
- Revista Expressão: http://www.editoraculturacrista.com.br/categorias.asp?codigo=17
- John Stott: http://www.editoraculturacrista.com.br/resultadopesquisa.asp?search=stott&tipo=op1
Algumas pessoas são indisciplinadas e dependem de firmar um compromisso oficial para realizar algumas atividades que não realizariam, se não o tivessem firmado. Se este é o seu caso, você não pode prescindir da Escola Dominical de sua igreja, e pode se utilizar de cursos em instituições sérias. Deixo duas dicas:
- Cursos livres do Seminário JMC: http://www.seminariojmc.br/datafiles/capa/capa.htm
- Curso EAD do Andrew Jumper: http://www.mackenzie.br/especializacao_on-line.html
3) Ore por fé na Palavra de Deus. Fé, confiança, é algo que apenas Deus pode gerar em nosso coração (isto não vem de vós, é dom de Deus). Duvidar de si mesmo e confiar na Bíblia é uma capacidade sobrenatural dada por Deus. Por isso, ore por fé na Bíblia.
b) Às igrejas:
1) Precisamos pensar em meios para possibilitar aos crentes uma maior exposição às Escrituras. Para isso dias, horários e locais de reuniões podem ser flexibilizados. Em cidades grandes como SP, grupos familiares divididos geograficamente podem ser oportunos. Também, neste caso, a tecnologia pode ajudar muito. A transmissão ao vivo e gravação e futura disponibilização dos estudos bíblicos semanais na internet (o que hoje não é algo tão difícil de fazer), pode ser muito útil.
2) Precisamos também oferecer oportunidades de ensino sério, profundo e sistemático da Bíblia. As igrejas podem investir na Escola Dominical, treinando seus professores. Elas devem fomentar o ensino sério na Bíblia em suas sociedades internas. E o incentivo ao constante aperfeiçoamento do Pastor deve também marcar as nossas igrejas.
3) Precisamos mostrar praticamente que cremos no poder da Bíblia. Os oficiais da igreja (Presbíteros e Diáconos, no caso da IPB) devem ser as pessoas mais apegadas à Bíblia, dentre todos os demais crentes. Eles, mais do que todos, devem se dedicar ao estudo da Bíblia e à prática da mesma diante de seus liderados. Devem ainda planejar e executar o planejamento da igreja debaixo da orientação da Bíblia, e conduzir os crentes remetendo-os sempre à Palavra de Deus. Somente assim eles serão exemplos de apego à Palavra de Deus.
Redescobrir a Bíblia! Esse é o caminho para a transformação do indivíduo, da igreja e da sociedade. E é algo que cristãos e igrejas tradicionais também precisam fazer.
Filipe Fontes